Uma questão difícil pode desafiar o estudante. Mas também pode ser difícil simplesmente porque o enunciado está confuso, porque duas alternativas parecem corretas ou porque cobra algo que não foi trabalhado em aula.
Nos dois casos, o aluno pode errar. Só que o erro não diz a mesma coisa.
É por isso que nem toda questão difícil é uma boa questão.
Uma avaliação bem construída precisa gerar uma informação confiável sobre a aprendizagem. Para isso, a dificuldade deve estar no raciocínio que o estudante precisa mobilizar, e não na tentativa de descobrir o que o professor quis perguntar.
Antes de selecionar questões, portanto, vale pensar: o que esta avaliação precisa me ajudar a descobrir sobre a aprendizagem da turma?
Essa pergunta muda a forma de montar a prova.
Se você está começando pela estrutura do material, já temos um guia com o passo a passo para montar uma prova do zero. Aqui, vamos avançar para outro ponto: os critérios que ajudam a avaliar se as questões escolhidas realmente formam uma boa avaliação.
1. Alinhe a avaliação ao que foi ensinado
Parece básico, mas esse é um dos critérios mais importantes.
Uma avaliação não deve surpreender o estudante em relação ao que está sendo avaliado. Isso não significa repetir exatamente os exercícios feitos em sala, e sim cobrar conhecimentos, competências e habilidades que tiveram espaço no processo de aprendizagem.
Antes de montar a prova, retome:
- os objetivos de aprendizagem do período;
- os conteúdos efetivamente trabalhados;
- as atividades realizadas;
- as habilidades que se esperava desenvolver;
- o nível de aprofundamento alcançado pela turma.
No Ensino Fundamental, a própria BNCC pode ajudar nesse mapeamento, já que organiza as aprendizagens esperadas em competências e habilidades.
Uma forma prática de fazer isso é criar uma pequena matriz antes de selecionar as questões:
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Esse planejamento diminui o risco de montar uma prova com muitas questões sobre um assunto e quase nenhuma sobre outro ponto importante do período.
2. Equilibre os níveis de dificuldade
Uma prova com dez questões difíceis não é automaticamente mais rigorosa.
Da mesma forma, uma avaliação formada apenas por questões simples pode revelar pouco sobre o que os estudantes conseguem fazer com aquilo que aprenderam.
O equilíbrio depende do objetivo da avaliação, da faixa etária, do momento da aprendizagem e do nível de aprofundamento trabalhado em sala.
Uma mesma prova pode verificar se o estudante consegue:
- reconhecer uma informação;
- compreender um conceito;
- aplicá-lo em uma situação;
- relacioná-lo a outros conhecimentos;
- analisar um problema;
- justificar uma resposta.
Por isso, vale observar o conjunto da avaliação, e não apenas cada questão isoladamente.
A dificuldade precisa vir da habilidade exigida.
Uma questão pode ser cognitivamente exigente porque pede interpretação, comparação ou aplicação de um conceito em uma situação nova. Isso é diferente de tornar o item difícil por meio de um texto desnecessariamente complicado, uma informação escondida ou uma “pegadinha”.
Se o estudante errou porque não dominava a habilidade, a avaliação produziu uma informação pedagógica. Se errou porque não conseguiu entender o que estava sendo perguntado, talvez o problema esteja na própria questão.
3. Escreva comandos que deixem claro o que o estudante precisa fazer
“Analise.”
“Explique.”
“Compare.”
“Justifique.”
“Calcule.”
“Identifique.”
O verbo usado no comando já dá uma pista importante sobre o tipo de resposta esperado.
Um bom enunciado oferece todas as informações necessárias para que o estudante entenda a tarefa. Isso é especialmente importante nos Anos Finais do Ensino Fundamental, quando as avaliações começam a trabalhar textos, problemas e relações conceituais cada vez mais complexos.
Antes de aprovar uma questão, pergunte:
- está claro o que deve ser respondido?
- existe alguma informação desnecessária que dificulta a leitura?
- o vocabulário é adequado à turma?
- o comando permite mais de uma interpretação?
- o estudante precisa demonstrar conhecimento ou adivinhar a intenção de quem escreveu?
Também merece atenção o uso de negativas como “assinale a alternativa incorreta”, principalmente quando aparecem em textos longos ou acompanhadas de outras negações.
Quando forem realmente necessárias, elas precisam estar muito claras visualmente.
A complexidade da leitura pode fazer parte da habilidade avaliada. O que precisa ser evitado é a complexidade que não tem relação com aquilo que você pretende medir.
4. Evite alternativas ambíguas nas questões objetivas
Uma boa questão de múltipla escolha deve ter uma resposta defensável como correta e alternativas incorretas que sejam plausíveis.
É aí que entram os distratores.
Um bom distrator pode representar um erro de cálculo comum, uma confusão conceitual ou uma interpretação possível para quem ainda não domina completamente o conteúdo.
Ele não deve existir apenas para “enganar” o estudante.
Por outro lado, uma alternativa deixa de funcionar quando:
- também pode ser considerada correta;
- depende de uma interpretação muito específica do enunciado;
- contradiz parcialmente o texto, mas contém uma afirmação verdadeira;
- apresenta uma diferença tão óbvia que ninguém a escolheria;
- traz pistas gramaticais ou de tamanho que denunciam a resposta correta.
Uma pergunta útil durante a revisão é:
“Eu conseguiria defender outra alternativa como correta?”
Se a resposta for sim, vale revisar.
Em avaliações de larga escala, a elaboração e a revisão dos itens também são tratadas como etapas específicas de qualidade. O Inep, por exemplo, mantém o Banco Nacional de Itens, utilizado na construção de diferentes avaliações e exames nacionais.
5. Varie os tipos de questão de acordo com o que você quer avaliar
Nem toda aprendizagem aparece bem em uma questão de múltipla escolha. Ao mesmo tempo, nem todo conteúdo precisa de uma resposta dissertativa longa.
A escolha do formato precisa acompanhar o objetivo.
Por exemplo:
- questões objetivas podem verificar compreensão, interpretação e aplicação;
- respostas curtas permitem observar conceitos específicos com mais liberdade;
- questões discursivas ajudam a avaliar argumentação, organização do raciocínio e justificativa;
- situações-problema mostram como o estudante mobiliza conhecimentos em determinado contexto;
- questões de associação, ordenação ou preenchimento podem funcionar quando a relação entre informações faz parte do que está sendo avaliado;
- gráficos, mapas, tabelas, imagens e textos podem ampliar as possibilidades de interpretação.
Variar formatos só para deixar a prova visualmente diferente, porém, não resolve.
Cada questão precisa ter uma função.
Antes de incluí-la, tente completar a frase:
“Com esta questão, quero descobrir se o estudante consegue…”
Se for difícil terminar a frase, talvez ainda não esteja claro por que aquela questão está na avaliação.
6. Avalie mais do que memorização
Memorizar informações faz parte de muitos processos de aprendizagem. O problema aparece quando a prova inteira depende apenas disso.
Saber uma fórmula, uma data, uma definição ou um conceito pode ser necessário. Depois, porém, é possível observar se o estudante consegue usar esse conhecimento.
Em vez de perguntar apenas “o que é?”, uma avaliação também pode propor:
- “como esse conceito aparece nesta situação?”;
- “qual princípio pode ser usado para resolver este problema?”;
- “o que mudaria se uma das condições fosse diferente?”;
- “compare os dois casos”;
- “justifique sua resposta”;
- “analise as informações e formule uma conclusão”.
Essa variação ajuda a identificar diferentes níveis de domínio.
Um estudante pode reconhecer um conceito quando o vê escrito e, ainda assim, ter dificuldade para aplicá-lo. Outro pode chegar à resposta correta, mas não conseguir explicar o raciocínio utilizado.
Quando a avaliação contempla essas diferenças, o resultado oferece mais pistas para o professor decidir o que precisa ser retomado.
7. Revise a prova como se você fosse respondê-la
A avaliação está pronta?
Ainda não.
Antes da aplicação, faça uma última leitura deixando de lado o olhar de quem escreveu e tentando assumir o lugar de quem vai responder.
Confira:
- os comandos estão claros?
- todas as informações necessárias estão disponíveis?
- existe alguma questão repetitiva?
- há equilíbrio entre conteúdos e habilidades?
- a dificuldade está adequada ao que foi trabalhado?
- as questões objetivas têm apenas uma resposta correta?
- o gabarito está correto?
- imagens, tabelas e gráficos estão legíveis?
- o espaço para respostas discursivas é suficiente?
- a prova pode ser concluída no tempo disponível?
- a linguagem e a apresentação estão adequadas à turma?
Além disso, observe o conjunto.
Às vezes, cada questão funciona individualmente, mas a prova completa fica longa demais, concentrada em um único formato ou com uma sequência de itens muito parecidos.
A revisão também pode revelar problemas que passam despercebidos durante a montagem, como uma resposta entregue involuntariamente em outra questão.
Depois da aplicação, a avaliação ainda pode ensinar algo sobre ela mesma
A revisão não precisa terminar quando a prova é aplicada.
Os resultados também ajudam a analisar a qualidade da avaliação.
Imagine que praticamente toda a turma tenha errado a mesma questão. Isso pode indicar uma habilidade que ainda precisa ser retomada. Entretanto, também vale voltar ao item e conferir se o comando estava claro, se o conteúdo havia sido trabalhado e se as alternativas estavam bem construídas.
Da mesma forma, uma questão com índice alto de acertos não é necessariamente “fácil demais”. Talvez ela esteja verificando uma aprendizagem que a turma realmente consolidou.
É por isso que os dados precisam ser interpretados em contexto.
No artigo Como usar o desempenho dos alunos para planejar suas aulas, mostramos como os resultados das avaliações podem voltar para o planejamento pedagógico.
Como o Super Professor pode apoiar esse processo
Na prática, construir uma boa avaliação exige duas coisas que nem sempre aparecem juntas na rotina docente: critério pedagógico e tempo para selecionar bons itens.
No Super Professor, os filtros por disciplina, assunto, série, habilidade da BNCC, grau de dificuldade e outros critérios ajudam o professor a encontrar questões mais adequadas ao que pretende avaliar, enquanto a curadoria reduz o trabalho de procurar materiais em diferentes fontes.
Ainda assim, a escolha final continua sendo pedagógica.
É o professor quem conhece a turma, sabe o que foi trabalhado e pode avaliar se determinada questão faz sentido naquele contexto.
Para escolas, o processo também pode continuar depois da aplicação. O Leitor de Gabaritos e o Diagramador de Cadernos de Provas conectam montagem, correção e leitura dos resultados, permitindo observar, inclusive, quais questões tiveram maior ou menor índice de acerto.
Quando esses dados indicam lacunas de aprendizagem, o ciclo pode avançar para a retomada. É justamente esse o ponto de contato com o Pazzei: a informação produzida pela atividade pode ajudar o estudante a identificar o que precisa revisar primeiro. Veja também: Terminou a atividade: o que o aluno deve revisar primeiro?.
Uma boa avaliação precisa produzir uma boa resposta para o professor
No fim, elaborar uma avaliação de qualidade não significa simplesmente aumentar ou diminuir a dificuldade.
Significa construir um instrumento capaz de responder perguntas importantes:
O estudante aprendeu o que foi trabalhado?
Que conhecimentos consegue mobilizar sozinho?
Onde ainda encontra dificuldade?
O que precisa ser retomado?
E o que essa turma já está pronta para aprender a seguir?
Quando a prova consegue oferecer essas pistas, a nota deixa de ser a única informação produzida pela avaliação.
Use o Super Professor para montar suas próximas listas. Acesse: https://superprofessor.com.br/
